Por F. H. Carvalho
O primeiro contato entre um pré-adolescente nascido na segunda metade dos anos 70 do último século e os Beatles, por ironia do destino, pode ter ocorrido durante um programa de TV. As imagens da última apresentação ao vivo da banda, no palco improvisado sobre o edifício da gravadora, foram mostrados por uma pretensa revista semanal televisiva, em uma época na qual isso ainda era possível - já que os canais de tv agora se parecem tanto com os diários e hebdomadários impressos em sangue e fofocas. Nessa época, provavelmente, o aparelho televisor de casa ainda era sem cores, e também sem aquela infame tela azul, costumeiramente colocada à frente das telas para fazer simulacro de colorização; apenas para destacar que já há tanto tempo entre o ontem e o hoje e os detalhes carecem de precisão, mas não de verdade. Confesso: mesmo ainda menino, acostumado a ouvir sons diversos (alguns mais pesados, influenciados pelo irmão um pouco mais velho), não fiquei tão entusiasmado com aquela banda de quatro sujeitos brancos tremendo de frio sobre um telhado, acompanhandos por um notável pianista negro, que se tornou um pouco o meu herói musical naquela época.
Billy Preston (1946-2006) é o herói em questão, mesmo tendo escrito o verso “I’m not trying to be your hero” na canção “Nothing for Nothing'', um de seus muitos e esquecidos sucessos. Houvesse as facilidades e distrações da vida moderna naquela época, tais como comunicação instantânea, computadores e telefones móveis “inteligentes”, bem capaz que eu descobrisse ainda mais proezas daquele sujeito talentoso, que ainda menino com menos de uma década, participou de um dueto na mesma TV (mas não a minha) com a lenda Nat King Cole. Preston também é o responsável por uma inspirada versão de “My Sweet Lord” (música que só ganhou um clipe recentemente, 50 anos após seu nascimento), no espetáculo Concert for George ocorrido em 29 de novembro de 2002, em um palco que se tornou uma constelação de estrelas homenageando o, naquele momento, há um ano ausente, George Harrison. Concorde ou não em relação à qualidade da versão dando uma olhada no seu registro em vídeo.
A mais recente imersão no universo da banda ocorreu após a série “Get Back” no serviço Disney+ (aliás, obrigado MercadoPago: pela assinatura gratuita do combo Disney+/Star+ e pelos 50% de desconto no serviço HBO Max). Muito mais do que um mero documentário, tão incensado pelas revistas semanais - que aparentemente tornaram-se programas de TV. O programa é um verdadeiro documento histórico. Graças ao diretor Peter Jackson (1961) com crédito às imagens captadas sob a direção (e sobre a atuação) de Michael Lindsay-Hogg (1940), as quase oito horas de programa, dividido em três partes, esclarecem muitos dos mitos que cercavam aquela que seria a última reunião de George, John, Paul e Ringo como a banda que, de muitos modos distintos, influenciou não apenas a música popular, mas também moda e comportamento no mundo todo.
Segundo a revista Rolling Stone, Jackson teria defendido o tempo de duração de sua edição das filmagens. “Senti intensamente - e esta é a parte de fã dos Beatles em mim começando: 'Qualquer coisa que não incluir neste filme pode voltar para o cofre por mais 50 anos.' Estava vendo e ouvindo esses momentos incríveis. Eu pensei: 'Deus, as pessoas têm que ver isso. Isso é ótimo. Eles têm que ver isso'.” Na mesma edição, a revista cita uma declaração emocionante de Julian Lennon, primogênito de John Lennon: "O filme me fez amar meu pai de novo, de uma forma que não consigo descrever totalmente. Obrigada por todos que ajudaram a realizar esse projeto. [É de] transformar a vida".
Em Get Back, por exemplo, é possível saborear o processo de criação e amadurecimento da banda inquieta, que, contraditoriamente, se fragmentava exatamente por não querer fazer mais do mesmo. Processo de criação, por exemplo, no caso de Paul e a canção que dá nome à série, “Get Back”
